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Já dizia um professor meu: "com a excepção de dois ou três realizadores já ninguém encena em cinema. Hoje em dia não se pode usar o termo Mise en scène. Ela acabou!". Cá para mim, quando disse isto, estava com saudades do Bergma, Hitchcock, Welles, Godard, Kubrick, Ford, Fellini, Kurosawa, Eisenstein, Ozu, Bunuel, Truffaut, entre outros. Foi o professor que melhor me ensinou a ver o cinema.
"The Bachelor"
Fujo agora um pouco à temática central deste blog para dar conta do quarto disco de originais de um mais interessantes músicos pop dos tempos que correm. Falo do britânico Patrick Wolf e do seu novo trabalho “The Bachelor”. Pessoalmente aguardava com bastantes expectativas este novo álbum e por muito elevadas que elas fossem o certo é que não saíram de todo defraudadas. “The Bachelor” apresenta um Patrick Wolf a querer finalizar experiências que em discos anteriores fizera. As electrónicas regressam, mas agora misturam-se com a pujança sinfónica do anterior “The Magic Position”.
O que antes era alegria agora passou a ser revolta. Os tempos são outros, são aqueles que tão espantosamente canta em "Hard Times", segundo single e possivelmente um dos pontos altos do álbum. Segue-se “Oblivion” e consequentemente a apresentação de uma voz que percorre todo o disco: Tilda Swinton. Voz que foi explicada pelo próprio Patrick Wolf como “a voz da esperança”.
O romantismo quase assombroso de “Damaris”, “The Sun is Often Out” e “Blackdown” dizem muito do ambiente musical que Wolf pratica. Agora procurando imprimir um tom mais épico à composição, tanto pelo dramatismo das melodias como pela utilização de coros, diga-se de passagem extremamente bem conseguidos, como se pode confirmar não só em “Damaris” e “The Sun is Often Out” como também em “Count of Casualty” e “Who Will?”. Mas por aqui passa também a revolta que é “Battle”, tema que juntamente com “Vulture” explora as electrónicas, agora com a ajuda de Alec Empire em ambos os temas.
É importante referir que o talento de Wolf como letrista está ainda mais evidente. Tanto nos convence por completo a “lutarmos” a seu lado na “batalha” que canta em “Hard Times”, como de seguida nos desarma com o comovente lamento (dedicado a um poeta seu conhecido que se suicidou) que é “The Sun is Often Out” (letra aqui).
No final de “The Messenger” (último tema) não é difícil concluir que Patrick Wolf organizou cuidadosamente o alinhamento do disco e que o material que lá colocou atinge o seu perfeito estado quando entendido como um conjunto. Wolf combina na perfeição o testemunho pessoal com uma mensagem (e sim, é ele mesmo o mensageiro) bem mais abrangente. Reflectindo ainda o seu tempo com uma voz invulgarmente crítica. Para o final guarda a luz ao fundo do túnel, e na despedida diz: “When all else fails remember, always, always the open road”.
O disco tem aproximadamente uma hora, mas tal é o fulgor com que Wolf agarra as músicas que ao terminar pedimos mais. É certo que o teremos, mas só para o ano. Em todo o caso “The Bachelor” é o melhor trabalho do músico, a confirmação (se tal fosse necessário) de uma das maiores certezas da pop actual.
Serve este post para informar que, como se pode ver pela coluna à direita, aderi ao Twitter. Pouco mais é que um complemento ao Cinema Meu Amor, já que o que lá escrevo está muitas vezes relacionado com a temática que abordo neste blog. Sendo assim, achei por bem colocar esta pequena extensão, para que as pessoas que por aqui passam leiam também o que escrevo no Twitter.
United States of Tara
A ficção televisiva tem destas contrariedades, tão frequentemente é subaproveitada como de seguida nos dá todos os motivos para a aplaudirmos. Neste caso a responsabilidade do que acabo de dizer recai sobre a mais recente série da Showtime (o mesmo canal de Weeds e Californication) com o título muito sugestivo de "United States of Tara". A série, criada por Diablo Cody (Juno) e produzida por Steven Spielberg, debruça-se sobre Tara, uma esposa e mãe que diariamente luta para manter o equilíbrio entre a sua família e a doença que a afecta (distúrbio de personalidade múltipla). De louvar que tudo isto seja filmado com uma sensibilidade e sinceridade fundamentais para a concretização de tão ambiciosa encenação: afinal de contas aqui se tenta trabalhar esse espaço perigoso e delicado que existe entre a comédia e o drama. Ou como tudo o que vemos contem sempre essa pluralidade de formas. É também agradável que possamos ainda desfrutar do desempenho impecável (num papel sujeito às mais variadas nuances) de Toni Collete, sem esquecer evidentemente a excelência do restante elenco e sublinhar em particular o mais novo dos seus elementos Keir Gilchrist, no papel de Marshall, filho de Tara.
The Oscars - The 81st Academy Awards
Entregues que estão os Oscars, eis sem mais demoras os vencedores da noite:
Best Picture: “Slumdog Millionaire”
Best Director: Danny Boyle, “Slumdog Millionaire”
Best Actor: Sean Penn, “Milk”
Best Actress: Kate Winslet, “The Reader”
Best Supporting Actor: Heath Ledger, “The Dark Knight”
Best Supporting Actress: Penelope Cruz, “Vicky Cristina Barcelona”
Best Adapted Screenplay: “Slumdog Millionaire”
Best Original Screenplay: “Milk”
Best Art Direction: “The Curious Case of Benjamin Button”
Best Cinematography: “Slumdog Millionaire”
Best Costume Design: “The Duchess”
Best Film Editing: “Slumdog Millionaire”
Best Makeup: “The Curious Case of Benjamin Button”
Best Music (Original Score): “Slumdog Millionaire”
Best Music (Original Song): “Jai Ho” from “Slumdog Millionaire”
Best Sound Editing: “The Dark Knight”
Best Sound Mixing: “Slumdog Millionaire”
Best Visual Effects: “The Curious Case of Benjamin Button”
Best Animated Feature Film: “WALL-E”
Best Foreign Language Film: “Departures”
Best Documentary Feature: “Man on Wire”
Best Documentary Short: “Smile Pinki”
Best Short Film (Animated): “La Maison en Petits Cubes”
Best Short Film (Live Action): “Toyland”
Destaque para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (Departures) e Melhor Actor (Sean Penn), que, conjuntamente com a própria cerimónia, proporcionaram o que de mais inesperado houve, num espectáculo muito bem conduzido por Hugh Jackman e com bastantes alterações na sua estrutura. A nova forma de apresentação dos nomeados para as categorias de representação foi, sem dúvida, um dos pontos positivos da noite, a par dos discursos de Sean Penn, Dustin Lance Black e Kate Winslet.
Rachel Getting Married
A pergunta que “Rachel Getting Married” faz é a mesma que tantos outros filmes tendem a ignorar descaradamente: Como entendemos o cosmos que é a família de hoje? Ora, onde esses outros filmes pecam por falta de reflexão, o mais recente filme de Jonatham Demme consegue a proeza não só de fazer a pergunta como também de a reflectir ao mais ínfimo pormenor.
Demme ultimamente tem direccionado o seu trabalho à realização de documentários, tendo como tema comum o meio musical, mas não nos esquecemos que ele é precisamente o nome por detrás de filmes como “The Silence of the Lambs” ou “Philadelphia”, filmes esses que o tornaram um dos grandes nomes do cinema norte-americano. O mesmo afirma ainda que não fazia tenções de retomar, pelo menos tão prontamente, a ficção, mas que ao receber o argumento escrito por Jenny Lumet mudou de ideias e o resultado dessa decisão não poderia ter sido mais positivo.
“Rachel Getting Married” é antes de mais um magnífico retrato de um quotidiano marcado por todos os seus encantos e sobretudo desencantos. Que além do mais não esconde os seus intervenientes naquele facilitismo representativo que os entende como o resultado da vontade do espectador. Por outras palavras, Jonatham Demme procura representar aquilo que entende dos seres que habitam aquele quotidiano. A identificação espectador/personagem é totalmente secundária. Não tenta colorir aquele mundo, procurando antes uma verdade nas coisas.
Com a adopção de uma estética fotográfica próxima daquela presente nos chamados “filmes caseiros” atinge uma consistência e uma coerência, que por exemplo, “Slumdog Millionaire” não conseguia atingir com a que tinha adoptado, e reivindica essa mesma estética como parte fulcral e activa daquele particular universo.
Convém ainda dizer que tudo isto é sustentado por um felicíssimo elenco, onde se destacam as performances de Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt e Debra Winger. É uma autêntica delícia ver aquele triângulo a funcionar como um organismo sempre vivo e além do mais surpreendente.
Cinema de ontem, de hoje, de sempre (6 Cont.)
Ainda sobre “All the President’s Men”, gostaria ainda de aqui colocar o segmento final do filme: os dois jornalistas escrevem (em segundo plano) “O” artigo numa perspectiva que os parece colocar frente a frente. No primeiro plano, na televisão, Nixon jura sobre a bíblia “preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos da América”. Como não encontro o excerto na internet, fica aqui um fotograma do plano:
Cinema de ontem, de hoje, de sempre (6)
Devo confessar que só muito recentemente vi “All the President’s Men” de Alan J. Pakula. E digo isto para que se entenda que o enquadramento que pretendo anunciar estará obrigatoriamente condicionado por esse aspecto.
Ora não é que ao reflectir, entre outras coisas, sobre a personagem Deep Throat (Hall Holbrook), mais concretamente as cenas em que aparece, dei por mim a pensar o bom que seria se os mais recentes filmes de suspense e thriller possuíssem metade que fosse da intensidade dramática presente naqueles poucos minutos em que vemos o famoso informador do caso Watergat. Existe aqui quase que uma aura sagrada, tão frágil e privada. A encenação é perfeita, fazendo crer que o mais pequeno som fora daquela intimidade poderia ter as repercussões de uma explosão. Isto sim é de cortar a respiração.
Não era este a cena que queria mostrar, mas para todos os efeitos preenche os requisitos:
Happy-Go-Lucky
Existe um problema de fundo no mais recente filme de Mike Leigh: Todo ele é concebido com um intuito tão obstinado quanto redutor. Poppy, personagem central do filme, é ao mesmo tempo uma (péssima) metáfora e uma armadilha para a actriz que a representa: Sally Hawkins possui uma ideia tão concreta do ser que representa, de como deve agir, falar e pensar, que a certa altura a própria personagem parece não só não evolui, como não apresenta qualquer desafia para a actriz, quase que como a personagem soubesse de antemão as repercussões que um determinado acontecimento iriam ter psicologicamente (e fisicamente) em si. Entenda-se que não estou a afirmar que um determinado actor não deva conhecer a fundo a personagem que representa, estou antes a dizer que quando a personagem que representa não possui mais que uma ou duas formas de estar e de sentir, esse actor tende a estereotipar o que já de si é estereotipado. Aquilo que deveria ser uma preciosa descoberta para Poppy (ela mesma) torna-se num esquemático e formal processo de mera apresentação.
Tudo o resto é secundário. Aliás, secundarizado pelo próprio Leigh, e a ideia com que se fica é de que assistimos a um projecto em desenvolvimento, ou seja, existe uma ideia de filme mas essa ideia não chega a ganhar corpo.
Não duvido das boas intenções de Leight, de cuja obra sigo atentamente, aquilo que me entristece é a falta de coração e o excesso de cabeça. Seria interessante ver o equilíbrio entre os dois, porque Leigh continua a saber filmar.
Milk
Reflexão eminentemente política dos destinos colectivos mas mais que isso um comovente retrato das motivações individuais e do efeito que (creio) possuem no(s) outro(s). Milk, a história conhecida, e extraordinariamente revisitada no documentário de 1984 (The Times of Harvey Milk" de Rob Epstein), aliás ponto de partida para o argumento escrito por Dustin Lance Black, é agora pensada por Gus Van Sant, que além de ficcionar com precisão as circunstâncias e modos de vida de um local numa determinada época, conseguindo transmitir na perfeição o ambiente lá vivido, fá-lo antes de mais através de um respeito enorme pelos intervenientes. Harvey Milk, o principal, é aqui visto não como um herói mítico, mas antes como alguém concreto e ao mesmo tempo complexo. Diga-se desde já que este Milk é na sua essência tão experimental como qualquer outro filme de Van Sant. Os elementos mesmo mais subtis não escondem a precisão retratista do realizador: a obsessão quase que doentia pelas personagens, esse olhar que parece querer dissecar a alma de tudo o que respirar, não obrigatoriamente pela via das palavras (veja-se o exemplo da nudez no olhar de Josh Brolin).
Ou então a extrema sensibilidade na exploração dramática de determinadas cenas, aqui com a ajuda preciosa de Sean Penn, numa composição mais que a procura da imitação perfeita dos maneiros e forma de falar de Harbey Milk, a querer recusar todo e qualquer facilitismo dramático. Ele que tão bem usa o texto: veja-se o poder dramático presente na cena em que fala ao telefone com Scott (James Franco). Cada palavra contêm em si a esmagadora percepção de um final, ou então, a emotiva clarividência da mais cristalina descoberta:
"-I don't wanna lose this
- What?
- This."
Toda a cena é ela de um intimismo quase sagrado, aliás, muito bem fotografada por Harris Savides, que consegue ainda conjugar na perfeição as imagens de arquivo com as que filma.
Um objecto, além do mais, de grande actualidade e de uma urgência tocante. Inspirador.
BAFTA 2009 - Vencedores
Foram entregues ontem os prémios britânicos BAFTA. Tal como nos Golden Globes, o melhor filme coube ao filme de Danny Boyle que também arrecadou o BAFTA de melhor realizador. Aqui fica a “foto de família” seguida da lista completa dos vencedores:
BEST PICTURE: Slumdog Millionaire
BEST DIRECTOR: Danny Boyle, Slumdog Millionaire
BEST ACTRESS: Kate Winslet, The Reader
BEST ACTOR: Micky Rourke, The Wrestler
SUPPORTING ACTOR: Heath Ledger, The Dark Knight
SUPPORTING ACTRESS: Penelope Cruz, Vicky Cristina Barcelona
BRITISH FILM: Man on Wire
ANIMATED FILM: WALL•E
CARL FOREMAN AWARD: Steve McQueen, Hunger
FILM NOT IN THE ENGLISH LANGUAGE: I’ve Loved You So Long
ORIGINAL SCREENPLAY: Martin McDonagh, In Bruges
ADAPTED SCREENPLAY: Simon Beaufoy, Slumdog Millionaire
CINEMATOGRAPHY: Anthony Dod Mantle, Slumdog Millionaire
VISUAL EFFECTS: The Curious Case of Benjamin Button
MAKEUP and HAIR: The Curious Case of Benjamin Button
PRODUCTION DESIGN: The Curious Case of Benjamin Button
SCORE: AR Rahman, Slumdog Millionaire
SOUND: Slumdog Millionaire
EDITING: Slumdog Millionaire
COSTUMES: The Duchess
RISING STAR: Noel Clarke
SHORT ANIMATION: Wallace & Gromit: A Matter of Loaf and Death
ACADEMY FELLOWSHIP: Terry Gilliam
Slumdog Millionaire
Apetece começar com a pergunta: afinal de quem é (quem realiza) Slumdog Millionaire? E a resposta mais lógica e certamente correcta é dada pelos próprios créditos do filme: Danny Boyle. Então explico o porquê da pergunta aparentemente tão despropositada que fiz. Terminado o visionamento de Slumdog parece-me que o que vi não possuiu aquilo que demarca os grandes da restante trivialidade: a visão singular das coisas. Já aqui referi precisamente isto aquando de Ron Howard e do seu Frost/Nixon. Se bem que, comparando o incomparável, Frost/Nixon ainda assim se distancia qualitativamente de Slumdog, quanto mais não seja pelas performances do elenco.
Mas voltando a Danny Boyle e à sua grande ambição: Como retratar algo tão complexo como um país (neste caso a índia)? Boyle aparentemente viu a miséria e a pobreza de milhões e milhões de habitantes, provavelmente quis demonstrar isso mesmo fazendo-o através dos "olhos" de Jamal, um jovem que, na incessante procura por Latika, por quem está apaixonado, vê no famoso programa televisivo "Quem quer ser milionário?" a oportunidade perfeita. Ora, o problema aqui não é de todo a pretensão, nobre até. O problema é precisamente a execução. Que a meu entender falha. Porquê? Em primeiro lugar pelo que já disse (falta de singularidade) e em segundo porque aquilo em que o filme se transformou é exactamente o contrário do que pretendia ser. Indo por partes:
Boyle parece não possuir grande interesse naquilo que seria íntimo, único e insubstituível: os seres que habitam o ecrã. As personagens aqui presentes raras vezes são mais que uma ideia. A principal, Jamal, o herói martirizado. A convencional idealização de sucesso. O irmão, vilão que a certa altura busca a redenção. Já Latika nem uma ideia em si chega a possuir, é apenas o desejo de outrem.
O espaço, factor esse de extrema importância, é prejudicado pela própria noção de tempo. Não é surpresa nenhuma a forma como Boyle se move de cena em cena e mesmo dentro de cada cena. Aliás, por muitos considerado a imagem de marca do realizador. Montagem vertiginosa à procura da surpresa para assim dar a noção de fulgor e um pulsar energético. O que convenhamos resulta numa parafernália de cortes aleatórios de cinco em cinco segundos a lembrar um qualquer filme de acção/aventura ou então um anúncio publicitário.
E depois, a estética fotográfica utilizada acompanha isto tudo com um recurso exagerado e totalmente antagónico (em relação à ideia realista do filme) da saturação cromática e por conseguinte contrastante. Se me permitem, plasticamente (no sentido pejorativo do termo) contrastante.
Por último e talvez mais grave é aquilo que se entende como o motor da própria história: o relacionamento entre Jamal e Latika. Todo ele é pobre dramaticamente, pouco credível e muito ingénuo. Mais parece saído de uma qualquer comédia romântica, tal o nível caricatural com que os sentimentos são vistos.
Prémios e polémicas à parte, o que resta de Slumdog Millionaire (o filme) é muito pouco, e o realismo que invoca, na verdade, não o é aqui, na Inglaterra ou na Índia.
Entrevista a Mike Nichols
Vale a pena ver esta entrevista conduzida por Charlie Rose a Mike Nichols, encenador e cineasta conhecido do grande público com obras como “Who's Afraid of Virginia Woolf?”, “Angels in America” ou “Closer”. No entanto, não se fala aqui de cinema ou televisão mas sim da peça que em 2005 o encenador levou à Broadway com o nome de "Spamalot", peça essa inspirada no filme "Monty Python and the Holy Grail". Sabedoria e humor na voz do já galardoado com o Oscar de Melhor Realizador em 1968 por “The Graduate”.
“Something just clicked”
Cinco duplas que vão desde Nicole Kidman e Baz Luhrmaaa a Gus Van Sant e Sean Penn foram fotografadas por Annie Leibovitz para a revista Vanity Fair (tendo por sugestivo título “Something just clicked”) num total de 10 fotografias com um denominador comum: Actor e realizador. Dos aqui presentes 9 têm uma nomeação para os Oscars a serem entregues dia 22 de Fevereiro deste ano. No site, o “slideshow” termina com a “dupla” que mais tempo tem trabalho junta:
31 Days of Oscar
Fantástico promocional feito pela TCM para publicitar a sua programação. Intitula-se "31 Days of Oscar" e vale a pena ser visto:
P.S. Outro dos aspectos em relevo nesta programação da TCM é o facto dos filmes passados entre dia 1 de Fevereiro e 2 de Março não possuírem intervalos. Uma ideia bastante interessante, quem sabe possível de ser aproveitada pelos nossos canais.
Frost/Nixon
Frost/Nixon é sem grande margem para dúvidas o melhor filme de Ron Howard. O que por si só, diga-se, não coloca a obra em questão num elevadíssimo patamar de qualidade. O que faz então este revisitar da famosa entrevista conduzida em 1977 por David Frost a Richard Nixon um caso de sucesso na filmografia do realizador? Muito concretamente: o tema em questão e o argumento de Peter Morgan. Ou ainda, se quisermos, o elenco, com especial destaque para a composição de Frank Langella. Do que retiramos contudo da performance de Howard? Retiramos a mais básica das encenações, o mais gritante desaproveitamento do potencial dramático de algumas situações, enfim, a evidente falta de singularidade. Nada que já não esperasse do realizador, que, como já disse, neste caso teve a ajuda decisiva de um interessantíssimo argumento para conseguir erguer a um nível razoável a qualidade do filme. Pena, porque o material em causa poderia dar azos a algo bem mais requintado.
Vicky Cristina Barcelona
Poderemos desde já adiantar que este não é dos trabalhos mais conseguidos de Woody Allen. Todavia, desde essa obra de referência chamada Match Point, apresenta-se como o mais interessante. Agora que filma em Barcelona, e por muito que queira dar uma importância elevada à cidade, torna-se evidente que não o consegue fazer com o mesmo brilhantismo que o fez com a emblemática Nova York. Retirando esse aparente desconforto no domínio total do espaço, ficamos ainda com a impressão de que Allen tentou em demasia, por vezes parecendo a narrativa bastante forçada. Dito isto é também certo que esporadicamente se vê alguns rasgos de verdadeira inspiração, não serão, porém, tantos como se esperaria do autor de Annie Hall e Manhattan.
The Duchess
Visto The Duchess ficamos com a impressão de que vimos qualquer coisa que deambula entre um filme (diga-se não tão exemplar quanto isso) e uma qualquer reconstituição histórica de um documentário televisivo. Quanto mais não seja porque, e apesar do esforço dos actores, as personagens são meras amostrar de determinado comportamento ou atributo, uma visão tão redutora dos seres quanto ingénua. Parece que os esforços de Saul Dibb se centraram no aparato, um pouco exibicionista, dos elementos ligados à direcção de arte (guarda roupa e cenários), já que de essência e sensibilidade pouco existe.
The Curious Case of Benjamin Button
Começo por dizer que pouco ou nada do que aqui escrever fará jus absoluto à “estranheza” do que acabo de assistir e que vem a ser o propósito deste post. Porque aquilo que aqui disser será sempre e constantemente uma ausência. Neste caso mais acentuada pela impossibilidade (pelo menos para mim) de descrever algo sem saber exactamente o alcance daquilo que foi experienciado. Diria então, para simplificar, que existem filmes que são de fácil recordação, existem outros que nos transportam para mundos desconhecidos, outros ainda que carregam aquilo que queremos dizer e não conseguimos, e por fim, existem filmes que simplesmente… dançam. Dançam ao som de qualquer coisa sem espaço nem tempo, qualquer coisa nesse intermédio impossível de identificar. Mas que transporta consigo todas as convulsões e enigmas de uma vida. Quando esse som termina temos a profunda certeza que fomos apenas nós que deixamos de o ouvir. Esse som era afinal a candura do intemporal.
“The Curious Case…” é primeiramente todo este corpo material e imaterial de experiências, é em segundo lugar, uma preciosa viagem pelo encantamento do desconhecido. Pelo ficcionado, pela crença em absoluto no poder da fábula. Mais do que isso, pela cristalina verdade de cada frame filmado, de cada palavra dita, de cada silêncio sentido. É pura contemplação. Um exercício que recusa, além do mais, todo e qualquer facilitismo dramático, numa procura incessante pela sua própria verdade.
E essa verdade é também o curioso caso de Benjamin Button, que nasce velho e com o passar do tempo rejuvenesce. É a jornada de uma vida com tudo o que de particular e, irremediavelmente, de único contem. São sensivelmente duas horas e meia de uma comovente reflexão sobre a vida e a morte, e aquilo que de frágil existe no intermédio.
E depois de toda uma viagem prodigiosa, como findar aquilo que de si recusa toda e qualquer noção pré-estabelecida de tempo? É, tendo essa noção, que David Fincher nos dá aquele que é possivelmente um dos finais mais memoráveis do cinema.
O talento de David Fincher já não é surpresa nenhuma, e o que aqui faz com o incrível argumento de Eric Roth, é não só um reforçar dessa certeza, como mais que isso uma genial demonstração de versatilidade. Apague-se essa ideia que tem vindo a considerar Fincher como um cineasta de pólos, de uma pujança crua e fria. Sim, Fincher também é isso, mas é muito mais. Essa sua versatilidade é não só em termos técnicos (a era digital para Fincher já tem nome) como também em termos de composição dramática. Composição essa em parte fruto da contribuição de mais uma tocante banda sonora composta por Alexandre Desplat, do olhar cândido da lente de Claudio Miranda e do tremendo perfeccionismo da equipa artística.
Para além de tudo isto, torna-se impossível não mencionar a subtil e precisa interpretação de um Brad Pitt como há muito tempo não se via, se é que alguma vez se viu assim. Da desarmante e mais uma vez encantatória Cate Blanchett, bem como da curta presença, mas não menos memorável, misteriosamente sedutora Tilda Swinton.
Apetece mesmo dizer, numa época do ano como esta, que se “Slumdog Millionaire” for pelo menos metade do filme que “The Curious Case of Benjamin Button” é, então não há qualquer dúvida da justeza (se tal conceito nestas circunstâncias existe) do Globo de Ouro para Melhor Filme. Quanto ao filme de David Fincher, não me parece que estivesse em competição. Correndo o risco de estar a ser sensacionalista, “The Curious Case of Benjamin Button” não é deste tempo, sendo ainda um filme de um qualquer outro universo.
Changeling
Ficaríamos surpresos perante uma obra como “Changeling” se não soubéssemos à priori tratar-se de “mais” um filme daquele que é porventura um dos maiores nomes do cinema contemporâneo. Arrojado na criação dos ambientes, sendo que a Los Angeles que vemos no filme é resultado de uma inspiradíssima recriação (desde o guarda-roupa à direcção artística) histórica, mas bem mais importante que isso, uma emotiva viagem pelo interior de uma personagem (Christine Collins) em permanente luta para encontrar o seu filho desaparecido. Se o díptico “Flags of Our Fathers” e “Letters from Iwo Jima” pode ser entendido como uma obra aberta, na medida em que retrata as feridas de um colectivo (americano, claro está), então Changeling será por oposto uma obra mais fechada, intima. Para isso converge toda a ambiência taciturna criada não só pela magnífica fotografia de Stern como também pelo pulsar contemplativo da montagem. Tudo isto é filmado (e já agora, musicado) com a precisão e o encanto já característicos de Eastwood que dirige ainda uma Angelina Jolie em estado de graça.
Golden Globes 2008
Foi divulgado à pouco menos de uma hora os vencedores dos Golden Globes. As previsões confirmaram-se e o grande vencedor da noite foi mesmo o filme de Danny Boyle (que também ganhou o Globo para melhor realizador) Slumdog Millionaire. Já na categoria Comédia/Músical o Globo foi para Vicky Cristina Barcelona de Woody Allen. O Globo para melhor actor coube a Mickey Rourke por The Wrestler e Kate Winslet levou para casa dois Globos, o de Melhor Actriz por Revolutionary Road e Actriz Secundária por The Reader. Nas categorias para televisão, os premiados foram Mad Man (Melhor Série Dramática) e 30 Rock (Melhor série Comédia/Músical). A lista completa dos premiados pode ser vista aqui.
A Batalha de Wolf
Os dois discos que Patrick Wolf anunciou para este ano serão mesmo lançados separadamente, sendo que o primeiro chamar-se-á “Batlle” (e o segundo "Batlle of Love"). Serão lançados pela produtora do cantor, Bloody Chamber Music, e estão envoltos numa pequena novidade: serão financiados pelo próprio consumidor. Isso mesmo, Wolf associou-se ao site Bandstocks que tem como objectivo encorajar os fãs a doarem dinheiro para que os músicos de que gostam continuem a produzir, tendo ainda algumas vantagens por acréscimo (vale a pena visitar o site para mais informações). De salientar ainda que Patrick Wolf fez uma pequena mistura intitulada “Battlemegamix” que colocou no seu Myspace. Pelo que mostra consegue aguçar ainda mais a curiosidade em redor de “Batlle”.
Sobre tudo isto, eis o que Wolf diz:
Balanço 2008, 1ª parte (Música)
2008 foi um ano bastante irregular no que toca a actualizações no Cinema Meu Amor, fazendo um paralelismo um tanto ao quanto conveniente para avançar com o que pretendo abordar neste post, também a qualidade dos objectos, tanto cinematográficos como discográficos lançados este ano no nosso país. Começarei então por abordar os discos que mais me agradaram neste ano, deixando os filmes para um próximo post.
Em primeiro lugar devo referir que optei por fazer uma lista de 15 discos e não 10 (como é habitual nestes casos) somente porque me pareceu injusto não referir alguns nomes que marcaram definitivamente este ano que terminou. Devo ainda dizer que nos primeiros três lugares há um empate pelo simples facto de me ser impossível escolher entre os três discos qual o melhor. Sendo assim aqui está a lista:
1. Fleet Foxes, “Fleet Foxes”
Talvez a estreia do ano. Qualquer coisa entre a folk e a pop, sustentado por um trabalho vocal irrepreensível. “Fleet Foxes” é um cuidadoso exercício de composição, uma harmoniosa viagem pela América rural. É em certas alturas um cântico de devoção. Celebremos então os rios, as montanhas e tudo aquilo que inspira Casey Wescott e companhia a criar tão boa música.
1. Portishead, “Third”
O que fazer depois de “Dummy”? 90% apostaria pelo seguro e faria mais do mesmo, mas os Portishead não só pertencem aos restantes 10% como ainda pertence ao 1% que consegue fazer, senão melhor, pelo menos de nível equivalente. “Third” é uma experiência arrojada e estimulante. Um disco adulto e de um experimentalismo enorme, lembro-me de, nesta procura por nossos caminhos musicais, algo assim parecido chamado Kid A. Só espero não termos de esperar mais nove anos pelo próximo disco.
1. TV on the Radio, “Dear Science”
Há dois anos fizeram um disco perfeito. Era difícil em (relativamente) pouco tempo conseguir fazer algo que superasse “Return To Cookie Mountain”. Se é verdade que no todo que é “Dear Science” não o conseguiram fazer, não é menos verdade que metade das faixas deste disco são do melhor que os Tv on the Radio já fizeram, o que só por si basta para que este seja um dos melhores discos deste ano. Concluiria dizendo que estamos perante uma banda que se encontra nesse grupo restrito de músicos que já marcaram o inicio deste século.
4. Shearwater, "Rook"
Nostalgia e sabedoria na escrita, na composição e voz um comovente exercício musical. Depois de ouvir é difícil esquecer. “Rook” é não só dos melhores trabalhos dos Shearwater, como também um dos mais belos e delicados discos do ano.
5. Vampire Weekend "Vampire Weekend"
Uma colecção de temas fenomenais assinalam a estreia desta banda proveniente de Nova York. Pop com influências afro convergem na criação de contagiantes sons. Só nos resta perguntar: para quando o próximo disco? Por aqui já se desespera. As expectativas são elevadas.
6. The Last Shadow Puppets, “The Age Of The Understatement”
The Last Shadow Puppets é muito mais que uma simples colaboração. É aquilo a que se chama um corpo formado de identidade própria. Muitas são as bandas que almejam isto por toda uma carreira e não o alcançam. Ironicamente, “The Age Of The Understatement” é aquilo que os “Arctic Monkeys” e os “The Rascals” ainda não conseguiram ser.
7. Bon Iver, “For Emma, Forever Ago”
“For Emma , Forever Ago” é não só um inteligente trabalho melódico, como Justin Vernon se mostra um dotado letrista. Difícil ficar indiferente perante tão magoada e frágil voz.
8. Ruby Suns, “Sea Lion”
Difícil catalogar as músicas de “Sea Lion”. A segunda toma de Ruby Suns mostra uma maturidade fora do comum na convergência dos diversos estilos musicais que decidem usar para produzir aquele que é talvez o disco mais multicultural do ano.
9. The Walkmen, “You & Me”
Talvez a melhor pop/rock que o ano de 2008 produziu. The Walkmen conseguem com “You & Me” reencontrar o espírito de um género que, infelizmente, tem andado em mãos que o trabalham como mero acessório. Não haverá musica mais apropriada que a fabulosa “In The New Year” para entrar neste ano de 2009.
10. Santogold, “Santogold”
Um disco contagiante. A procura por uma personalidade musical que culmina, para o ouvinte, numa extraordinária experiência.
11. Department of Eagles, “In Ear Park”
12. Hercules and Love Affair, “Hercules and Love Affair”
13. Bomb The Bass, "Future Chaos"
14. Late of the Pier, " Fantasy Black Channel"
15. MGMT, “Oracular Spectacular”
Grace is Gone

Não foi senão mais um daqueles tristes casos que constantemente têm lugar no panorama de distribuição português. “Grave is Gone” de James C. Strouse estreou nos E. U. A. no ano passado. Entretanto, o filme saiu para o mercado de DVD norte-americano este ano. Lembro que o filme é protagonizado por John Cusack, e provavelmente se as previsões que alguns meios de comunicação vinham a fazer, nas quais Cusack aparecia como possível candidato ao Oscar de melhor actor (coisa que como é conhecido não aconteceu), possivelmente o filme, não sendo por mais nada, teria visibilidade suficiente para estrear nos nossos cinemas (ou então não, existem certas coisas que escapam do meu campo de compreensão). Seja como for, penso que vale a pena descobrir esta “pequena” obra, e já que não temos possibilidade de o fazer convenientemente numa sala de cinema, não resta senão o pequeno ecrã. Já falei anteriormente de John Cusack, cuja composição despertou atenções e levantou rumores. Diria antes de mais que o trabalho de Cusack surge de uma tremenda sensibilidade na compreensão da personagem que interpreta. A sua performance é uma evocação sentido de um homem que se vê perdido ao ter que dizer às duas filhas que a mãe destas morreu em serviço militar no Iraque. A delicadeza com que vai construindo todo um percurso de descoberta interior, e a forma como evolui no decorrer do extraordinário trabalho que desenvolve com as estreantes Shélan O’Keefe e Gracie Bednarczyk são exemplos de uma tremenda honestidade e profunda entrega. O filme não só revela ser um comovente retrato humano, como também uma reflexão cuidada sobre as feridas interiores de uma América em luto. A certa altura do filme assiste-se a este diálogo entre o pai (Cusack) e a filha mais velha (O’Keefe):
“- Dad? Do you ever think that Mom should have stayed home?
- All the time.
- Why did she have to go?
- She was doing her duty, Heidi, you know that.
- I know, but what exactly does that mean?
- We've talked about this. We have people all over the world looking out for our safety. When they discover a threat, they have to act on it. That's the way the world is.
- On the news they're saying that we went to war with the wrong people, that it was all a lie.
- Well, you can't always believe everything you hear on television, can you? Sometimes you just got to trust that you're doing the right thing. We got to believe...
- Well, what if you can't?
- Then we're all lost.”
P.S. A banda sonora que tão bem acompanha estas paisagens emocionais é composta por Clint Eastwood, sendo que compõe também a belíssima música interpretada por Jamie Cullum presente no genérico final. Tanto a banda sonora como o tema (que se intitula “Grace is Gone”) foram nomeados para os Golden Globes.
“High and Low” por Nichols
"Biutiful",...


assim se chamará o novo filme de Alejandro Gonzalez Inarritu, terá Javier Bardem como protagonista. O filme que sucede Babel será rodado em Barcelona e não contará com Guillermo Arriaga, habitual colaborador de Inarritu, no argumento. Esse foi escrito pelo próprio Inarritu em parceria com Armando Bo e Nicolas Giacobone. Já a restante equipa técnica terá os suspeito do costume: Rodrigo Prieto (fotografia), Gustavo Santaolalla (banda sonora) e Stephen Mirrione (montagem).
Australia - Trailer
Aconteça o que acontecer, estejamos perante um futuro brilhante filme ou não, um facto é incontornável, "Australia" de Baz Lurhmann irá ser um dos filmes mais falados nos próximos tempos. Digo-o não só devido à dupla de protagonista que apresenta (Nikole Kidman e Hugh Jackman) mas também por este ser a primeira realização de Lurhmann em sete anos, relembro que em 2001 o realizador australiano realizou o musical Moulin Rouge (também este com Kidman). Vem tudo isto a propósito do recente lançamento do secundo trailer oficial do filme. A sua estreia está agendada para dia 25 de Dezembro em Portugal.
Damages
Não poucas vezes me espanta o excesso de mediatismo que certos produtos de ficção televisiva têm. Outras vezes e não com menor espanto sou alertado para o oposto. Por outras palavras, e já exemplificando o que quero dizer, acho surpreendente que perante um objecto como Damages pouco ou nada se houve falar, sendo tudo isto mais surpreendente pelo simples facto de entre o (fabuloso) elenco que compõe a série estar nem mais nem menos que Glen Close, presença assídua no grande ecrã. Mas deixando de parte todo este "mistério" e centrando a questão no que de mais importante há aqui para analisar, a pergunta impõe-se: porquê Damages agora? Em primeiro lugar porque se trata de uma série na sua primeiríssima temporada, em segundo lugar e mais relevante que isso porque esta estreia é uma das mais aliciantes e bem conseguidas do ano televisivo. Quando o seu nome aparece na lista de nomeações para prémios como os Emmys ou os Golden Globes na categoria de melhor série dramática não posso negar que (e com a excepção de comédia) se outro género houvesse nas nomeações (thriller, terror, etc) em nenhum dos outros a consideraria aceitar. Damages é puro drama. Certamente que joga com os tempos e espaços que normalmente às ficções de suspense são atribuídos, mas tudo isso serve apenas para acentuar o carácter dramático do que na trama se conta. E posso assegurar que estamos perante um inteligente, criativo e adulto universo. Desde o perfeito timing das cenas ao desenvolvimento tridimensional das personagens, é prova do carácter profundamente maduro desta serie.
Pensada e construída como um todo que pretende diluir as suas partes num puzzle que possui tanto de surpreendente como de meticuloso, vamos de episódio a episódio seguindo uma complexa e desconcertante teia de acontecimentos que vão desvendando lentamente, através dos constantes flashforwards, o futuro conclusivo dos mesmos, sem nunca, muito pelo contrário, perder a subtileza do suspense, que como referi tão bem cria. Toda a acção que Damages circunscreve é alicerçada por uma noção muito clara da complexidade das personagens criadas, ou seja, nem por instantes será possível identificar uma dualidade redutora deste seres. Aqui não esta em causa a descoberta do bom e do mau, muito para além disso é importante perceber as motivações, os objectivos e a natureza de cada um, bem como a dinâmica existente em cada relação, e é precisamente neste aspecto dos relacionamentos que as nossas atenções são direccionadas. Elementos como a manipulação, o poder e a confiança são trabalhados na mais pura dinâmica entre aquilo que se vislumbra e o que está camuflado.
Claro está que falar de Damages sem referir o magnífico trabalho de Glen Close seria impossível. Arrojada seria adjectivo insignificante, Close é a alma da série sem no entanto ser presença abusiva em campo. A personagem que representa consegue esse efeito deslumbrante de se manter um desafio constante para o espectador, um enigma e ao mesmo tempo uma obsessão, e grande parte do mérito disto vai para a actriz. Outra presença que pode passar despercebida mas que me parece constituir uma das melhores composições da série é a do actor Zeljko Ivanek, num poderoso retrato de um sucedido e meticuloso advogado em declínio emocional. Mas falar de Damages é falar primeiramente de uma noção sem qualquer tipo de ingenuidades dos espaços ocupados por essa ideia, por vezes tão concreta e outras vezes tão abstracta, que dá pelo nome de justiça. Mais ainda, os modos como ela é percepcionada e até mesmo vivenciada. Aqui, essa noção de justiça é sempre um organismo vivo, pronto a desafiar os códigos mais rígidos do instituído e subverter as normas da moral.
Ainda sobre Burn After Reading...
Penso que no post anterior não sublinhei muito bem um dos aspectos mais sublimes desta obra: que bom é ver tamanha concentração de talentos. Clooney é já um habitue nos filmes dos irmãos Coen, e como tem sido regra, os dois conseguem retirar do actor extraordinárias performances. Brad Pitt, muito para além da necessidade de qualquer demonstração de talento (não precisa de o fazer, já as deu anteriormente) constrói uma personagem que não só é por base um saboroso exercício de comédia, como também se apresenta como um sublime processo no que ao seu desenvolvimento ao longo da narrativa diz respeito. Não menos importantes são as performances de Frances McDormand, John Malkovich e Tilda Swinton. Menos mediáticos estes três actores, mas nem por sombras menos relevantes. A camaleónica qualidade de McDormand, junta-se ao perfeccionismo interpretativo de Swinton e Malkovich formando com os já referidos Clooney e Pitt um dos melhores elencos do ano. Prova do quão entusiasmante é a pluralidade.
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